quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Parte 3 (Fernando)

O flerte durou mais alguns minutos, até que eu me dei conta de que já era 9 da noite e eu precisava ir embora. Como o flerte continuava, decidi arriscar a sorte: fui falar com o bonitão.
- E aí, beleza?
- Beleza.
Não tinha a mínima idéia do que falar. As palavras sumiam.
- Você vem sempre aqui? É... Quer dizer... Você é amigo do Paulo?
- Paulo?
- É, o aniversariante.
- Roberto. O nome do aniversariante é Roberto.
- Isso! Roberto, é verdade. Você é amigo dele?
- Não. Minha prima trabalha com ele.
- Ah, eu também. Quer dizer... Meu amigo também trabalha com ele.
- Legal.
Novamente, eu não sabia o que falar. Até então, só tinha falado besteira. “Você vem sempre aqui?” foi horrível!
Já conformado com mais uma oportunidade que parecia perdida, me surpreendi quando ele falou:
- Você esqueceu de perguntar meu nome.
- Nossa! Pode crer. Então, qual seu nome?
- Fernando. E o seu?
- Maurício.
A conversa durou mais ou menos meia hora, o suficiente apenas pra saber que, assim como eu, ele mora com os pais e com a irmã mais nova. Fomos interrompido pela prima dele:
- Vamos, Fê?
- Já vou. Cinco minutinhos - respondeu Fernando.
- Tá bom. Já vou me despedir do Roberto.
- Tá.
A prima se distanciou e ele se dirigiu a mim:
- Bom, tenho que ir.
- É uma pena... – falei, tomando coragem.
Ele deu um sorriso tímido, olhando pra baixo.
- Alguma chance de a gente se encontrar novamente? – perguntei, com o pensamento “não perca essa oportunidade” gritando na minha cabeça.
- Claro – respondeu ele, provocando em mim um sorriso que mal cabia na boca.
- Você anota meu telefone? – ele retornou.
- Claro! Fala aí!
Anotei o número do celular dele e ele anotou o número do meu.
- Então a gente se fala. Até mais!
- Falou!
Ele se despediu e saiu da festa com a prima. Em seguida, o Flávio me chamou pra irmos embora também.

Acordei na segunda-feira com um sorriso bobo no rosto. Um sorriso gostoso, uma sensação de bem-estar muito boa. Fui pra editora cantando e trabalhei empolgado. Decidi que ligaria pro Fernando na hora do almoço.
Quando deu meio-dia e cinco minutos eu liguei:
- Alô? – Uma voz feminina atendeu.
- Oi, por favor o Fernando?
- Fernando?! Não tem nenhum Fernando nesse número, não.
Confirmei o número com a pessoa que atendeu.
- É esse número mesmo, mas eu tenho esse número há 3 anos.
- Ah tá. Desculpa, então - desliguei, sentindo uma mistura de raiva e tristeza.
Logo em seguida meu celular tocou.
- Alô! - atendi.
- Maurício?
- É ele mesmo – respondi, sentindo uma enorme felicidade ao reconhecer aquela voz.
- Oi, é o Fernando.
- Fala, rapaz!
- Você tá ocupado?
- Não, não. Pode falar - mesmo se eu estivesse ocupado, eu pararia tudo o que estivesse fazendo.
- Então... Eu tava pensando... Que tal a gente marcar de se encontrar hoje à noite? – ele convidou, me fazendo dar pulos de alegria.
- Acho ótimo! – concordei, sem pensar duas vezes em faltar na faculdade.
- Legal! Me fala aí um horário bom.
- Hum... Sete horas. Pode ser?
- Pode ser. Onde? - ele perguntou.
- A gente pode se encontrar no metrô e decidir na hora.
- Boa! Então sete horas no metrô? – Confirmei, ansiosíssimo.
- Sete horas no metrô, então.
- Beleza, então.
- Até lá!
- Até. Falou!
- Falou!
Depois que desliguei vi que tinha anotado o número dele errado no dia da festa.
Passei o resto do dia trabalhando com um sorriso ainda maior do que aquele com o qual acordei. Não via a hora de me encontrar com o Fernando.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Parte 2 (Festa)

A festa era na casa de um colega de trabalho do Flávio. E as festas para as quais ele me convida costumam ser muito boas.
Levei uns trinta minutos pra chegar. A festa estava meio chata: tinha pouca gente, a música não era das melhores e fazia muito frio. Serviu, ao menos, pra ver gente nova e bater um papo com meu velho amigo - o que eu não fazia havia algum tempo.
Enquanto colocávamos os assuntos em dia, mais e mais pessoas foram chegando, a música melhorou consideravelmente e o álcool da cerveja já tinha nos esquentado um pouco, ou seja, a festa de repente ficou boa.
Levantamos e fomos dar uma olhada no pessoal. O aniversariante veio até nós e o Flávio nos apresentou. Ele parecia ser um cara legal, apesar de um pouco bobo. Deixei os dois trocando figurinhas sobre trabalho e fui ao banheiro. Senti que um par de olhos me vigiava. Ao voltar – propositalmente pelo mesmo caminho – notei que o par de olhos continuava me acompanhando. Curioso como sou, virei o pescoço para identificar o dono dos olhos perseguidores: era um cara alto, magro, moreno, de olhos claros e de cabelo escuro e arrepiado. Fiquei por alguns segundos parado, observando (quase babando), até que uma mão sacudiu meu braço:
- Posso saber com quem é o flerte? – era o Flávio, engraçadinho como sempre.
- Com o bonitão ali, encostado, de camiseta cinza.
- Nooossa!! Bota bonitão nisso, hein!
- Ele ficou me olhando quando eu fui no banheiro. Agora eu tô olhando pra ele pra ver se rola alguma coisa.
- Quer que eu vá falar com ele?
- Não. Deixa eu ficar olhando mais um pouco.
- Bem que me disseram que ia ter alguns caras interessantes nessa festa - Lembrou Flávio.
- É, realmente tem.

sexta-feira, 10 de junho de 2005

Parte 1 (Domingo)

Aquele jogo de futebol já estava me irritando. Me levantei, desliguei a TV e saí. Assim mesmo, sem rumo.
O almoço do dia das mães tinha sido ótimo - com direito a muita paparicação à minha queridíssima mãe - e, como sempre, todos foram fazer a sesta. Menos eu. Era cinco da tarde de um domingo frio. O que é que tem de bom pra se fazer num fim de tarde de domingo? Nada. Então resolvi dar uma volta.
Descendo as escadas, passei pela síndica - uma mulher do mal - que, quando me viu, lançou um olhar do tipo "aonde esse moleque desnaturado vai?" ou "esses jovens de hoje em dia não respeitam mais nem as mães".
Deixei a senhora fofoqueira com seus pensamentos pecaminosos a meu respeito e continuei andando. Quando dei por mim, estava naquela rua que tem um monte de trailers - com várias mesas e cadeiras de bar - onde só toca forró. Decidido a dar meia volta, parei, surpreso. Em uma das mesas havia um casal de surdo-mudos conversando. Pela idade e semelhança, deviam ser mãe e filho. Fiquei fascinado com a alegria e a empolgação com que conversavam - através da língua de sinais, claro. Eles pareciam estar realmente muito felizes.
Já havia passado uns quarenta minutos quando meu celular tocou (confesso que levei um leve susto). Era o Flávio, meu melhor amigo, me chamando para uma festa.
E é lógico que eu fui.